Autoestima e cuidados com a pele

Existe uma procura cada vez maior por procedimentos estéticos, na tentativa de melhorar a imagem pessoal. Nunca se falou tanto em autocuidado, uma busca cada vez maior pelo bem-estar físico e mental. Isso é facilmente explicado não só pelo envelhecimento da população, mas também pelas características das novas gerações. Todos querem envelhecer bem e com qualidade de vida, em todas as fases.



Assim como o mercado de saúde e beleza vem crescendo nos últimos anos, a plataforma que monitora as buscas de termos específicos no Google, o Google Trends, registrou um aumento considerável pelo termo “skincare” - que significa cuidados com a pele, desde o início do ano 2020, alcançando o pico durante a pandemia. Ao mesmo tempo, o crescimento digital e o uso das redes sociais impõem novos patamares para os padrões de beleza de face, corpo e também de comportamento, pelo aumento da exposição e acesso a conteúdos diversos, aflorando comparações e julgamentos.


A jornalista do Reino Unido, Danae Mercer, tem uma conta em rede social voltada à desmistificação de corpos perfeitos na mídia – ela exibe fotos reais de si mesma com diferentes ângulos e iluminação, mostrando como é possível camuflar imperfeições do corpo, dependendo da pose, e como é importante mostrar que as mesmas existem em todas nós e fazem parte da nossa história e do que somos. A colunista da Vogue, Cláudia Arruga, alerta para novos termos utilizados, como ageism, que é a discriminação baseada na idade, e body shaming, expressão superatual que anda pelas redes sociais e significa a “crítica feita ao corpo dos outros”. Cláudia escreve sobre as /perennials – mulheres acima dos 45 anos, que se encontram numa nova fase de descobertas da maturidade e longe de definições de corpo e mente.

O cuidado com a beleza física pode melhorar nossa autoestima à medida que melhora a satisfação com a imagem que vemos no espelho. Mas a busca pelo belo deve vir em conjunto com o cuidado do olhar sobre nós mesmos. A nossa mente determina nossos pensamentos, nossas ações e, em última análise, nossa satisfação.

Pessoas com alta autoestima costumam ser mais resilientes e fortes, por acreditarem nas suas próprias qualidades. Mas como manter um espírito inquebrável quando se lida com adversidades que vão além do nosso controle? Seja nos problemas diários ou numa crise econômica global em meio a uma pandemia antes inimaginável. O dinamismo das informações, a competitividade do mercado de trabalho, o mundo digital cada vez mais presente deixam o indivíduo cada vez mais em evidência e sujeito a provas e comparações. Como manter um alto grau de confiança em si mesmo? Não é uma tarefa fácil, se até Michelle Obama, personalidade de impacto, já confessou em uma entrevista, dada a Oprah Winfrey, que sofre da Síndrome do Impostor – sensação constante de insegurança e dúvida quanto à própria competência. Mulheres sofrem mais desse mal do que os homens, e este fato pode estar associado ao nosso padrão de culpa e ao não reconhecimento do que se é capaz.


É preciso ter um olhar mais generoso sobre as nossas próprias qualidades e conquistas. Quem se valoriza e se contenta com o próprio modo de ser, tende a ter mais confiança em seus atos e julgamentos. E, desta forma, ser mais satisfeito e feliz. A escritora norteamericana Elizabeth Gilbert, conhecida pelo livro “Comer, rezar, amar” (2006), cita em um dos seus livros de autoajuda: “Não busque a originalidade. A maioria das coisas já foi realizada”. A ideia é procurarmos valor no que fazemos, nas pequenas conquistas e não em grandes atos heroicos ou descobertas. Os pilares para a construção da autoestima são a autoaceitação e autoconfiança, nos âmbitos pessoal e social. Pessoalmente: não se culpar - por fazer menos do que poderia; não se comparar com outras pessoas de realidades distintas; ser grato – ser capaz de enxergar o bem ao nosso redor e o que há dentro de nós, isso nos dá uma sensação de felicidade e nos impulsiona a sermos ainda melhores em pensamentos e ações.


Do ponto de vista social, é necessário ter uma rede de relacionamentos que nos apoie e que nos faça sentir parte. Além de uma competência pessoal, achar a nossa vocação, que pode ou não estar relacionada com a profissão escolhida - uma área de atuação em que você identifique seu propósito, onde fazemos a diferença – seja um hobby, um trabalho, um papel dentro de uma comunidade ou mesmo numa relação interpessoal. Nem sempre é necessário ter muitas virtudes, às vezes, uma única é capaz de nos sustentar nos períodos de dificuldade, na eterna busca pelo “sentido da vida”.


Uma área da medicina relativamente recente é a medicina do estilo de vida. Tem como objetivo estimular os pacientes a adotarem um estilo de vida saudável, prevenindo doenças crônicas, promovendo longevidade e maior qualidade de vida, representando a base para a promoção de saúde e bem-estar. Seus pilares incluem a adesão a hábitos saudáveis, levando em conta os aspectos físicos e também socioemocionais, como qualidade de sono, controle do estresse, atividades físicas, dieta balanceada, felicidade e conexões sociais.


Seguindo a mesma tendência, é possível observar uma mudança na abordagem das queixas estéticas na área da Cosmiatria – subespecialidade da Dermatologia voltada para a prevenção e tratamento de problemas estéticos na pele, de forma responsável e ética. Um estudo publicado em setembro de 2019, no Aesthetic Surgery Journal, uma publicação da Oxford Academic, demonstrou a satisfação dos pacientes após a aplicação da toxina botulínica, um dos tratamentos estéticos mais realizados no mundo, cuja finalidade é amenizar linhas e rugas de expressão no terço superior da face. No estudo, além da melhora clínica das rugas, o tratamento promoveu melhorias significativas na satisfação do paciente com o envelhecimento e a aparência facial, bem como importante bem-estar psicológico. Foram utilizados questionários para análise de qualidade de vida, que englobam perguntas como 'quão descansado está o seu rosto', 'eu me sinto bem comigo mesmo' e 'eu me sinto atraente'.


Muitas pessoas buscam na dermatologia estética maneiras de se sentirem melhores com a sua aparência. A abordagem cosmiátrica atual visa encontrar a melhor versão do indivíduo, sem necessariamente grandes transformações e, principalmente, sem receitas padronizadas. A tendência é fazermos, cada vez mais, procedimentos dermatológicos minimamente invasivos, mais precocemente e que preservem as nossas características pessoais. Nossa imagem deve fortalecer a nossa autoestima e autoconfiança, dando credibilidade à mensagem que queremos transmitir. Deve fazer sentido com a nossa personalidade, pensamentos e atitudes.

Dra. Paula Voltarelli

CRM 126.563 | RQE 32.630

Médica Dermatologista, título de especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, diretora clínica da MV Dermatologia, assessora médica na FQM Melora, divisão do Grupo FQM Farmoquimica.


Para a Revista Projeto Autoestima n. 3 julho 2020.